terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Caminho da fome

Carlos desceu da moto, com as botas sujas da areia seca do sertão.

Queria ver de perto aquilo que o cercava.

Moto parada no acostamento.

Ao redor o som sombrio do vazio causado pela fome. Na frente barracas... muitas barracas. Eram como tendas de um coro tão seco que estava prestes a rasgar.

Em cada barraca uma pessoa estendia as mãos em busca de uma moeda. Em busca de uma migalha.

O rosto daquela mulher impressionava.

Era o rosto de sofrimento, de dor.

A fome não é uma realidade distante. A miséria é um mal muito próximo.

Numa barraca mais a frente três crianças. Todas com o semblante da falta de esperança.

A moto balança devido ao vento causado pelo caminhão que acabou de passar. O vento é seco, como o dia, como o futuro daquelas pessoas.

Na beira da estrada, um exército de pedintes. Um grupo de pessoas clamando por ajuda.

A estrada continua. Mas Carlos levará consigo na memória um pouco do chão seco daquela terra.

Sobe na moto e olha o painel. Pouca gasolina. Muito a percorrer. Deixa a bolacha e a garrafa de água que guardava na mochila e parte.

Caminhões param e deixam comida, água, dinheiro...

Mais a frente uma fazenda, o gado magro é o anúncio da morte proxima. O sertanejo senta diante do sol, próximo a cerca. Contempla a miséria que lhe espera.

De repente o inesperado. Ele se assusta.

As gotas começam a cair. O chão recebe cada gota como o fruto da esperança.

Carlos para a moto novamente. Olha pra trás e contempla a gritaria, criancas antes amoadas, pulam e sorriem...

Sorriso puro e inocente, lágrimas do céu que se transformam em pranto... cai mais chuva... o sertanejo se levanta. Olha pra cima parece ainda não acreditar.

Carlos fecha a viseira, ajeita a jaqueta e com as gotas de alegria batendo contra o corpo. Segue a estrada esburacada com um sorriso no rosto e mais paz no coração.

Nenhum comentário:

Postar um comentário