terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A quenga, o jegue e o bêbado

Pacuri estava triste, parecia coincidência ruim. Mas pela quarta vez era passado pra trás e tomava chifre da esposa.

O mais triste é que foram todos de mulheres diferentes. Vai ter vocação para corno lá em Alagoinha do Piauí...

Pacuri, perdeu a esposa, a casa, a moral e a vergonha.

Pegou o jegue Jileno, única posse restante do divórcio e partiu para dentro do Sertão.

Depois de dois dias de viagem no lombo de Jileno, tomando cachaça e descançando nas sombras dos mandacarus que encontrava pelo caminho, ele parou no primeiro bordel que viu pela frente.

Precisava de descanso mais cachaça e dos carinhos de alguma quenga...

Marilda veio atender, com cara de extressada.

- Homem, mais que desgracera é essa, se tu quiser que entre, mas esse jegue fica pra fora...

Pacuri, respirou fundo e respondeu decidido:

- Esse jegue tem nome, é Jileno! E vai entrar no cabaré comigo sim!

E Marilda foi ficando mais nervosa:

- Mas não entra não, isso aqui é cabaré de respeito!

- E onde já se viu respeito em bordel mulher! Jileno é meu amigo e entra comigo... Disse Pacuri, já empurrando o jegue bordel a dentro.

Verinha, uma quenga nova, com cara de santa, viu a cena e se apaixonou de pronto.

- O Marilda, mas pare com isso, não vê que os dois são amigos, pois se esse jegue não entrar, eu é que vou embora com eles.

A dona do bordel, já sem paciência não pensou duas vezes:

- Pois vai embora quenga doida, vá você, o jegue e esse bêbado pra fora do meu bordel!

E seguiram os três, Sertão a fora, vivendo a intensa paixão, eram só eles: a quenga o jegue e o bêbado, passaram dois dias de viagem, fazendo juras de amor.

Pacuri já tinha uma nova cachaça, que dividia com a amada, carregada pelo Jileno, amigo fiel e inseparável.

Ele puxava a corda do jegue e seguia a pé, dando descanso ao lombo do pobre animal, pararam numa pequena casa abandonada na seca, já na divisa com o Ceará.

Pacuri jurava amores pra Verinha e fazia planos da nova vida que começariam juntos!

Foi até o lado de fora da casa, acariciou o Jileno e pensou, amigo, obrigado por ser fiel!

Voltou ao quarto e dormiu abraçado com Verinha. Feliz, realizado.

Ao acordar, tomou um susto. "Cadê Verinha?"

Pôs a cabeça pra fora do quarto, procurou Jileno e não encontrou também.

A quenga foi embora com o melhor amigo de Pacuri, o jegue Jileno e ainda levou junto a última garrafa de cachaça.

Pacuri, seguia seu destino. Pela quinta vez era passado pra trás... Dessa vez traído pelo safado do jegue Jileno.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Caminho da fome

Carlos desceu da moto, com as botas sujas da areia seca do sertão.

Queria ver de perto aquilo que o cercava.

Moto parada no acostamento.

Ao redor o som sombrio do vazio causado pela fome. Na frente barracas... muitas barracas. Eram como tendas de um coro tão seco que estava prestes a rasgar.

Em cada barraca uma pessoa estendia as mãos em busca de uma moeda. Em busca de uma migalha.

O rosto daquela mulher impressionava.

Era o rosto de sofrimento, de dor.

A fome não é uma realidade distante. A miséria é um mal muito próximo.

Numa barraca mais a frente três crianças. Todas com o semblante da falta de esperança.

A moto balança devido ao vento causado pelo caminhão que acabou de passar. O vento é seco, como o dia, como o futuro daquelas pessoas.

Na beira da estrada, um exército de pedintes. Um grupo de pessoas clamando por ajuda.

A estrada continua. Mas Carlos levará consigo na memória um pouco do chão seco daquela terra.

Sobe na moto e olha o painel. Pouca gasolina. Muito a percorrer. Deixa a bolacha e a garrafa de água que guardava na mochila e parte.

Caminhões param e deixam comida, água, dinheiro...

Mais a frente uma fazenda, o gado magro é o anúncio da morte proxima. O sertanejo senta diante do sol, próximo a cerca. Contempla a miséria que lhe espera.

De repente o inesperado. Ele se assusta.

As gotas começam a cair. O chão recebe cada gota como o fruto da esperança.

Carlos para a moto novamente. Olha pra trás e contempla a gritaria, criancas antes amoadas, pulam e sorriem...

Sorriso puro e inocente, lágrimas do céu que se transformam em pranto... cai mais chuva... o sertanejo se levanta. Olha pra cima parece ainda não acreditar.

Carlos fecha a viseira, ajeita a jaqueta e com as gotas de alegria batendo contra o corpo. Segue a estrada esburacada com um sorriso no rosto e mais paz no coração.