terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A pedra e o amor

Na entrada de um grande bueiro, numa avenida em São Paulo, era possível ver uma luz, pequena, em meio a escuridão.

Uma senhora magra, suja, carregando consigo a expressão da morte, traga o cachimbo com pressa.
Ratos passam ao lado dela. Que permanece impassível, concentrada apenas no cachimbo e na felicidade instantânea ocasionada pelo crack.

O corpo chega a tremer a cada "pipada". Pessoas passam e sentem nojo.

Outras, com medo daquele "ser", simplesmente mudam o caminho e evitam passar por perto.

Cada pessoa lida de uma forma diferente com a cena repulsiva. Poucos são os traços humanos perceptíveis naquela mulher.

Os olhos vidrados, a boca sem dentes, as feridas no rosto e nos braços. Uma grande cicatriz na testa, resultado de alguma paulada. Os dedos queimados pelo ato de acender o cachimbo de lata com o isqueiro ao contrário.

O ambiente exalando forte odor de fezes e com ratos e baratas por todos os lados ajuda a desumanizar a cena.

A mulher segue vidrada no cachimbo e na droga que consome, o mundo real não existe mais naqueles momentos de " viagem". A sujeira, o odor, nada importa...

Mas algo fez os olhos vidrados da mulher mudarem de foco.

Do outro lado da rua uma linda menina com pouco mais de 12 anos corre em direção ao bueiro.
Com os olhos cheios de lagrimas a menina parece não se importar com nada que está ao redor da mulher.

Envolve o corpo esquelético e sujo daquela mulher com os pequenos braços de menina, beija o rosto manchado de sujeira.

O cachimbo cai no chão, os fragmentos de pedra se misturam com as cinzas no mato alto da entrada do bueiro.

A mulher tem um vislumbre de realidade nos olhos da menina, que chorando apenas diz:

- Mãe volta pra casa, te amo e preciso de você comigo.

Sem diálogo...

E no ponto de ônibus José se prepara para a longa espera...

Olha para os lados, para a placa no ponto, observa um senhor de uns 70 anos com uma mala no braço e pergunta:

- É... Boa tarde, é aqui que passa o ônibus 912?

- Hã?

- O ônibus 912... é por aqui?

- Sim...

A solidão enquanto espera o ônibus precisa ser vencida...

Por que não puxar assunto com este senhor gente boa?

- Aparenta que vai chover hoje né? Tudo indica que sim, pelas nuvens e este vento...

- É.

José não se conforma, como pode este velhinho não fazer questão de se comunicar.

- Esse ônibus demora, toda vez é a mesma coisa, no mínimo uma hora esperando...

O senhor faz uma cara de pouco caso, olha para o relógio e responde com cara de poucos amigos.

- As vezes.

José observa um pequeno broche do Santos na maletinha dele e resolve mudar de tática.

- E o Peixe este ano? Desta vez, vai brigar por título né?

- Talvez... - responde pacientemente e sem demonstrar qualquer sentimento.

- O senhor é santista né?

- Sou.

Parece que realmente não iria rolar diálogo entre eles, José então apela para última tentativa masculina de um início de diálogo.

Observa a passagem de uma garota bonita e comenta em voz alta com o velho:

- Nossa que maravilha, olha só que espetáculo de mulher!

A garota passa por José e comprimenta o velho.

- Oi pai, tá esperando o ônibus faz muito tempo?

José olha para os lados, e vai embora antes mesmo de ouvir a resposta do velho...

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A estrela do cais

Sentado na padaria comunitária dos cortiços do Centro de Santos esperava curioso para conhecer a mulher que minha amiga Samara me apresentaria para uma entrevista. Confesso que trazia no peito muita curiosidade mesclada com uma certa dose de pré julgamento.

Não acreditava que uma mulher ainda trabalhava com prostituição numa idade tão avançada.

Eis que ela surge, caminhando com o andar decidido de uma dama da noite experiente. Negra, 70 anos, olhos grandes e expressivos, sem esconder as marcas do tempo. Era possível notar o sofrimento e luta daquela mulher em cada linha de expressão.

Peruca, do tipo "chanel", pernas finas e delgadas, a mostra num curto vestido.

Assim é a vida de Dona Stella, enquanto caminha pelas estreitas e antigas ruas do porto de Santos, leva consigo o gingado que nunca perdeu.

Logo ela puxa a cadeira para sentar conosco em volta da mesinha de boteco. Ela se assusta quando a cumprimento com um beijo no rosto e um abraço. Percebo que não está acostumada a ser tratada com respeito. Trata-se de algo novo para ela.

Estava curioso para entender quando começou a se prostituir, quais os motivos e o mais importante por que continua a se prostituir ainda hoje, aos 70 anos?

“Poderia dizer para você que sou uma coitada, mas não sou. Me prostituo sim e tenho muito orgulho disso, foi o caminho que encontrei para viver e me deu absolutamente tudo o que tenho hoje, seja bom, ou ruim”, é difícil a compreensão do que ela fala, devido à ausência de todos os dentes, mas é possível sentir verdade em cada palavra.

Pergunto qual o motivo de ter começado a se prostituir. Logo os olhos de Dona Stella se enchem de lágrima, a mulher forte e independente, dá lugar a um frágil ser, triste, relembrando o que é o maior pesadelo de quase todas as mães. O dia que perdeu o filho.

Dona Stella era mãe solteira, 17 anos filho nos braços, ano de 1963, se para qualquer pessoa isso é difícil, para uma menina negra abandonada pela família, numa cidade desconhecida e hostil como São Paulo é ainda mais complicado.

Ela começou a trabalhar como doméstica, mas para isso precisava deixar o filho recém-nascido com alguém que cuidasse dele. Lourdes aparentava ser uma mulher correta, católica fervorosa, 25 anos, única amiga de Stella.

Era com ela que Stella deixava o filho durante a semana, enquanto trabalhava numa destas casas de família. Num certo domingo foi buscar o filho, mas não achou nem a Lourdes, nem o filho Luiz Wellington, na época com apenas dez meses de vida.

Atormentada pela culpa, Stella abandonou o emprego e perambulou pelas ruas de São Paulo em busca do paradeiro do filho e da sequestradora, soube através de vizinhos que ela teria ido para o Paraná. Stella então pediu carona para um caminhoneiro. Na época era uma mulher, segundo conta, muito bonita, aos dezessete anos tinha um corpo que chamava a atenção dos homens. O caminhoneiro aceitou dar-lhe carona e um dinheiro para começar as buscas, em troca queria sexo durante o trajeto.

“Peguei gosto pela prostituição, ganhava meu dinheiro, procurava meu filho e de quebra, ainda esvaziava minha mente da culpa que sentia. Assim conheci todo este Brasil na boleia dos caminhões… E conheci quase todos os caminhoneiros do Brasil”, explica aos risos.

Hoje aos setenta anos, ela diz que a aposentadoria, não serve nem para pagar o pequeno comodo em que vive, triste situação da maioria dos aposentados do Brasil. “Não vou chorar, ou depender dos outros, faço a única coisa que sei. Ponho minha sainha e vou direto para o paredão, em mês bom faturo mais de mil reais”.

Dona Stella já foi julgada, vítima de preconceito, social, racial e principalmente moral.
Puta e vadia, são apenas alguns dos insultos proferidos contra ela. Que responde rindo, "puta é meu passado”.
Não se trata apenas de odiar a mulher por vender o corpo, mas se trata de demonizar, de tratá-la como “sub-ser” apenas por fazer o que julgam “errado”, comercializar o prazer.

Se ela ainda tem clientes?

A mulher perde muito da beleza com o passar dos anos, é inegável, mas na contramão dos homens, elas "são melhores com o passar do tempo"… Isso é o que garante Dona Stella com um sorriso.

Ela sai da padaria, hora de ir trabalhar, encontra um jovem cliente no “Paredão” e parte para mais uma noite de aventura, mais uma noite de trabalho. Cem reais por uma hora de prazer.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Começa um novo sonho "Curtas Histórias"

Neste humilde blog que começo hoje pretendo dividir com os leitores um pouco das histórias que vi, ouvi e imaginei. Um emaranhado de realidade fantástica, ou fantasias reais, vivenciadas e sonhadas ao longo dos meus poucos anos de vida. 

Confesso que sempre vivi um misto de realidade e sonho, sendo que muitas vezes me confundo entre eles. O único modo de fazer a inquietude que toma conta do meu coração cessar é escrever e colocar no papel a infinitude de personagem e idéias que rodeiam minha mente.

Espero causar as mais variadas emoções em quem lê, aprender mais com a prática e acima de tudo me divertir fazendo o que mais amo. 

O blog Curtas Histórias trará semanalmente, sempre as terças-feiras uma crônica, conto, ou poesia.

Peço a sua leitura, caso goste, o seu compartilhamento.

Grato e desde já feliz com a sua leitura,
Ivan Belmudes