quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Felicidade


Sabe aquelas cenas que não saem da sua cabeça? Aquelas fotografias tiradas pelo seu cérebro, guardadas naquelas gavetas especiais? Pois bem, graças a Deus tenho muitas dessas fotografias. 

Hoje em especial pensei num dia como qualquer outro, no qual descobri que a felicidade é muito simples, ao contrário do que muitos pensam é mais do que bens materiais caros, pessoas que lhe bajulam, ou mesmo o status social. 

Lembrei da gordinha mais feliz que já conheci e de um dia em que catávamos latinhas juntos. Era quarta feira de cinzas como agora.

Santos, uma cidade de tradição carnavalesca vivia a ressaca da segunda e se preparava para a terça de carnaval com mais blocos na rua. Dona Cida, com o sorriso inabalável e a felicidade que teimava em sentir, viu no dia uma grande oportunidade. 

Saiu cedo de casa comigo e partimos por várias ruas onde tinham passado os blocos. A missão era simples, recolher as latinhas vazias. Dois sacos grandes de lixo, um carrinho de feira e o pivete magrelo se abaixando junto com a vovó gordinha em busca de novas latas pelo caminho.

O caminho não era curto, mas ela encarava com alegria cada novo passo e me fazia rir com os mais simples gestos.

Enchemos duas sacolas e o carrinho de feira, hora de ir embora. 

Pelo caminho escutávamos as últimas bandas carnavalescas tocando ao fundo e via minha vó sambando e fazendo graça pelo caminho. 

Ao ver a troca das latas no ferro velho não me conformei com o baixo valor das tantas latinhas que conseguimos achar. Mas Dona Cida estava triunfante. Feliz da vida e falou:
"Filhinho vamos ao mercado comprar umas besteirinhas".

Só Deus sabe explicar o sorriso de felicidade de Dona Cida ao poder pagar no caixa do supermercado um pacote de bolachas recheadas, balinhas de caramelo e uma garrafa iogurte.

Durante toda a tarde comemos nosso prêmio pelo dia de trabalho e ganhei mais uma foto para guardar por toda a minha vida. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O Sanfoneiro

O céu logo escurecia... o dia se tornava noite no Sertão e aos poucos um vento fresco e gostoso trocava de lugar com o calor sufocante.

Seu Ernesto sentado numa cadeira de balanço me viu chegar de longe.

- Sente aqui moço. Messias vá buscar uma cadeira pro rapaz!

Ao me aproximar de seu Ernesto a cadeira já estava lá.

Me balancei na cadeira por alguns minutos. Seu Ernesto entrou em casa e voltou com dois copos de doce de leite.
Dizia que a mulher dele que fez.

Ao comer o doce falávamos sobre a noite no sertão e citei o quanto gostava de ouvir uma sanfona.

- Pois é? Tu gosta mesmo? Pois tenho uma la dentro. E não toco há bem uns dez anos...

Seu Ernesto pegou a sanfona e com um sorriso no rosto e os olhos brilhando começou a tocar.

Dona Eulália a esposa de seu Ernesto apareceu e fechou a cara. Parecia não gostar do que ouvia. Entrou rápido para casa.

O velho olhou para a platéia de apenas uma pessoa e disse em voz baixa:

- A velha fica brava. Quando eu tocava chovia de mulher. Ela me fez prometer parar de tocar. Mas você foi a desculpa perfeita para poder tocar de novo!

O velho tocava, os olhos mareavam. Jovem ele voltava a ser e assim tocou a sanfona.

Ao final de cada música batia palmas e aos poucos a frente da casa de seu Ernesto enchia de gente.

Próximo da meia noite, mais de 20 pessoas ouviam dançavam e aplaudiam o velho sanfoneiro! Um senhorzinho com triangulo na mão gritava "Seu Ernesto voltou!"