Um olhar de deboche, misturado a certeza de que nada irá acontecer, respaldada pelo crivo dos poderosos que dominam este país.
Infelizmente esse será o retrato que guardarei dos meus dois encontros com Arlete Hilu, a mulher que para especialistas foi a maior traficante de crianças do Brasil. Durante quatro meses mergulhei na história desta mulher.
Ao todo estima-se que pelo menos 700 crianças foram levadas somente para Israel por intermédio da quadrilha que ela representava. Suspeita-se que pelo menos mais 3 mil crianças também tenham sido traficadas para fora do país pelo mesmo grupo criminoso.
Arlete se justifica:
- Pode me chamar de traficante de crianças, é melhor do que traficante de drogas, eu fiz o bem.
- São bibelôs, presentinhos para os pais que os compraram.
- Essas crianças viveriam na miséria no Brasil, foram jogados no lixo.
- Tiveram tudo do bom e do melhor, não sei o que eles vem procurar no Brasil.
Ao todo ela cumpriu apenas dois anos e meio de prisão, sendo apenas 1,6 anos em regime fechado. Algumas pessoas podem dizer: "Mas isso foi nas décadas de 1980 e princípio de 1990". Porém, em pleno ano de 2016, a mesma mulher, apontada como uma das líderes do maior esquema de tráfico de crianças do país disse, por livre e espontânea vontade que em dezembro de 2015 intermediou a saída de uma criança brasileira para um casal israelense.
Fiquei espantado com a declaração dela, o mesmo que percebi na experiente e competente repórter Heleine Heringer. A mulher estava assumindo um crime gravíssimo, estava demonstrando não ter medo algum de ser punida por isso. Infelizmente descobri o motivo pouco mais de um mês depois da entrevista.
Num esforço sobre-humano, juntamente com o editor Daniel Carvalho e com a amiga Lindalva Matos, começamos por conta própria a investigar a quadrilha que agia na época e os envolvidos. Conseguimos nomes, conexões, dados referentes ao modo como agia a quadrilha, enfim cavocamos a história. Descobrimos jovens brasileiros que até hoje vivem sem saber as verdadeiras origens. Que sofrem com esta situação.
Descobrimos mães que tiveram os filhos levados pela miséria, pela falta de apoio, pela quadrilha que se aproveitava de tudo isso. Mas o pior, foi descobrir que o crime organizado possui o respaldo de quem deveria impedir a ação, de quem deveria zelar pelo nosso código penal, pela nossa constituição.
Infelizmente no país do contraditório, criminosos que se aproveitam da miséria para comercializar crianças para o exterior não são punidos. As mães trocam os filhos por comidas, enganadas em meio a vulnerabilidade social. Os filhos vivem no exterior, sem conhecerem suas origens.
No Brasil, bandido bom não é bandido morto, bandido bom é bandido rico.
Assim caminhamos, vendendo nossas almas, vendendo nossos filhos. O brasileiro não "verás que o filho teu não foge a luta", pois "verás que o filho teu será vendido".