terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A estrela do cais

Sentado na padaria comunitária dos cortiços do Centro de Santos esperava curioso para conhecer a mulher que minha amiga Samara me apresentaria para uma entrevista. Confesso que trazia no peito muita curiosidade mesclada com uma certa dose de pré julgamento.

Não acreditava que uma mulher ainda trabalhava com prostituição numa idade tão avançada.

Eis que ela surge, caminhando com o andar decidido de uma dama da noite experiente. Negra, 70 anos, olhos grandes e expressivos, sem esconder as marcas do tempo. Era possível notar o sofrimento e luta daquela mulher em cada linha de expressão.

Peruca, do tipo "chanel", pernas finas e delgadas, a mostra num curto vestido.

Assim é a vida de Dona Stella, enquanto caminha pelas estreitas e antigas ruas do porto de Santos, leva consigo o gingado que nunca perdeu.

Logo ela puxa a cadeira para sentar conosco em volta da mesinha de boteco. Ela se assusta quando a cumprimento com um beijo no rosto e um abraço. Percebo que não está acostumada a ser tratada com respeito. Trata-se de algo novo para ela.

Estava curioso para entender quando começou a se prostituir, quais os motivos e o mais importante por que continua a se prostituir ainda hoje, aos 70 anos?

“Poderia dizer para você que sou uma coitada, mas não sou. Me prostituo sim e tenho muito orgulho disso, foi o caminho que encontrei para viver e me deu absolutamente tudo o que tenho hoje, seja bom, ou ruim”, é difícil a compreensão do que ela fala, devido à ausência de todos os dentes, mas é possível sentir verdade em cada palavra.

Pergunto qual o motivo de ter começado a se prostituir. Logo os olhos de Dona Stella se enchem de lágrima, a mulher forte e independente, dá lugar a um frágil ser, triste, relembrando o que é o maior pesadelo de quase todas as mães. O dia que perdeu o filho.

Dona Stella era mãe solteira, 17 anos filho nos braços, ano de 1963, se para qualquer pessoa isso é difícil, para uma menina negra abandonada pela família, numa cidade desconhecida e hostil como São Paulo é ainda mais complicado.

Ela começou a trabalhar como doméstica, mas para isso precisava deixar o filho recém-nascido com alguém que cuidasse dele. Lourdes aparentava ser uma mulher correta, católica fervorosa, 25 anos, única amiga de Stella.

Era com ela que Stella deixava o filho durante a semana, enquanto trabalhava numa destas casas de família. Num certo domingo foi buscar o filho, mas não achou nem a Lourdes, nem o filho Luiz Wellington, na época com apenas dez meses de vida.

Atormentada pela culpa, Stella abandonou o emprego e perambulou pelas ruas de São Paulo em busca do paradeiro do filho e da sequestradora, soube através de vizinhos que ela teria ido para o Paraná. Stella então pediu carona para um caminhoneiro. Na época era uma mulher, segundo conta, muito bonita, aos dezessete anos tinha um corpo que chamava a atenção dos homens. O caminhoneiro aceitou dar-lhe carona e um dinheiro para começar as buscas, em troca queria sexo durante o trajeto.

“Peguei gosto pela prostituição, ganhava meu dinheiro, procurava meu filho e de quebra, ainda esvaziava minha mente da culpa que sentia. Assim conheci todo este Brasil na boleia dos caminhões… E conheci quase todos os caminhoneiros do Brasil”, explica aos risos.

Hoje aos setenta anos, ela diz que a aposentadoria, não serve nem para pagar o pequeno comodo em que vive, triste situação da maioria dos aposentados do Brasil. “Não vou chorar, ou depender dos outros, faço a única coisa que sei. Ponho minha sainha e vou direto para o paredão, em mês bom faturo mais de mil reais”.

Dona Stella já foi julgada, vítima de preconceito, social, racial e principalmente moral.
Puta e vadia, são apenas alguns dos insultos proferidos contra ela. Que responde rindo, "puta é meu passado”.
Não se trata apenas de odiar a mulher por vender o corpo, mas se trata de demonizar, de tratá-la como “sub-ser” apenas por fazer o que julgam “errado”, comercializar o prazer.

Se ela ainda tem clientes?

A mulher perde muito da beleza com o passar dos anos, é inegável, mas na contramão dos homens, elas "são melhores com o passar do tempo"… Isso é o que garante Dona Stella com um sorriso.

Ela sai da padaria, hora de ir trabalhar, encontra um jovem cliente no “Paredão” e parte para mais uma noite de aventura, mais uma noite de trabalho. Cem reais por uma hora de prazer.


6 comentários:

  1. PERFEITO!!!!!! E PALMAS PRA DONA STELLA

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado! Realmente a Dona Stella é uma pessoa incrível!

      Excluir
  2. Dona Estela como está hoje? Encontrou o filho roubado?

    ResponderExcluir
  3. Iron Curve - The Tithron | Titanium Cup | Titanium Arts
    Iron Curve – The titanium bolts Tithron, is a ceramic ceramic cup titanium belly button rings designed by our Cutlery partners. dental implants The design is titanium cup inspired by ceramic chilies. Rating: 5 · ‎6 reviews 바카라 총판 · ‎$19.99 · ‎In stock

    ResponderExcluir
  4. Acabei de assitir no YouTube no reporte record a história dela a matéria é de 2015 aí fui procurar saber se ela ainda é viva, uma pena saber que morreu sem nunca ter encontrado o filho que provavelmente cresceu com a história que foi abandonado pela mãe sendo que ela nunca esqueceu dele.

    ResponderExcluir