Curtas Histórias
terça-feira, 8 de março de 2016
Verás que o filho teu será vendido
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
Felicidade
Sabe aquelas cenas que não saem da sua cabeça? Aquelas fotografias tiradas pelo seu cérebro, guardadas naquelas gavetas especiais? Pois bem, graças a Deus tenho muitas dessas fotografias.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
O Sanfoneiro
O céu logo escurecia... o dia se tornava noite no Sertão e aos poucos um vento fresco e gostoso trocava de lugar com o calor sufocante.
Seu Ernesto sentado numa cadeira de balanço me viu chegar de longe.
- Sente aqui moço. Messias vá buscar uma cadeira pro rapaz!
Ao me aproximar de seu Ernesto a cadeira já estava lá.
Me balancei na cadeira por alguns minutos. Seu Ernesto entrou em casa e voltou com dois copos de doce de leite.
Dizia que a mulher dele que fez.
Ao comer o doce falávamos sobre a noite no sertão e citei o quanto gostava de ouvir uma sanfona.
- Pois é? Tu gosta mesmo? Pois tenho uma la dentro. E não toco há bem uns dez anos...
Seu Ernesto pegou a sanfona e com um sorriso no rosto e os olhos brilhando começou a tocar.
Dona Eulália a esposa de seu Ernesto apareceu e fechou a cara. Parecia não gostar do que ouvia. Entrou rápido para casa.
O velho olhou para a platéia de apenas uma pessoa e disse em voz baixa:
- A velha fica brava. Quando eu tocava chovia de mulher. Ela me fez prometer parar de tocar. Mas você foi a desculpa perfeita para poder tocar de novo!
O velho tocava, os olhos mareavam. Jovem ele voltava a ser e assim tocou a sanfona.
Ao final de cada música batia palmas e aos poucos a frente da casa de seu Ernesto enchia de gente.
Próximo da meia noite, mais de 20 pessoas ouviam dançavam e aplaudiam o velho sanfoneiro! Um senhorzinho com triangulo na mão gritava "Seu Ernesto voltou!"
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
A quenga, o jegue e o bêbado
Pacuri estava triste, parecia coincidência ruim. Mas pela quarta vez era passado pra trás e tomava chifre da esposa.
O mais triste é que foram todos de mulheres diferentes. Vai ter vocação para corno lá em Alagoinha do Piauí...
Pacuri, perdeu a esposa, a casa, a moral e a vergonha.
Pegou o jegue Jileno, única posse restante do divórcio e partiu para dentro do Sertão.
Depois de dois dias de viagem no lombo de Jileno, tomando cachaça e descançando nas sombras dos mandacarus que encontrava pelo caminho, ele parou no primeiro bordel que viu pela frente.
Precisava de descanso mais cachaça e dos carinhos de alguma quenga...
Marilda veio atender, com cara de extressada.
- Homem, mais que desgracera é essa, se tu quiser que entre, mas esse jegue fica pra fora...
Pacuri, respirou fundo e respondeu decidido:
- Esse jegue tem nome, é Jileno! E vai entrar no cabaré comigo sim!
E Marilda foi ficando mais nervosa:
- Mas não entra não, isso aqui é cabaré de respeito!
- E onde já se viu respeito em bordel mulher! Jileno é meu amigo e entra comigo... Disse Pacuri, já empurrando o jegue bordel a dentro.
Verinha, uma quenga nova, com cara de santa, viu a cena e se apaixonou de pronto.
- O Marilda, mas pare com isso, não vê que os dois são amigos, pois se esse jegue não entrar, eu é que vou embora com eles.
A dona do bordel, já sem paciência não pensou duas vezes:
- Pois vai embora quenga doida, vá você, o jegue e esse bêbado pra fora do meu bordel!
E seguiram os três, Sertão a fora, vivendo a intensa paixão, eram só eles: a quenga o jegue e o bêbado, passaram dois dias de viagem, fazendo juras de amor.
Pacuri já tinha uma nova cachaça, que dividia com a amada, carregada pelo Jileno, amigo fiel e inseparável.
Ele puxava a corda do jegue e seguia a pé, dando descanso ao lombo do pobre animal, pararam numa pequena casa abandonada na seca, já na divisa com o Ceará.
Pacuri jurava amores pra Verinha e fazia planos da nova vida que começariam juntos!
Foi até o lado de fora da casa, acariciou o Jileno e pensou, amigo, obrigado por ser fiel!
Voltou ao quarto e dormiu abraçado com Verinha. Feliz, realizado.
Ao acordar, tomou um susto. "Cadê Verinha?"
Pôs a cabeça pra fora do quarto, procurou Jileno e não encontrou também.
A quenga foi embora com o melhor amigo de Pacuri, o jegue Jileno e ainda levou junto a última garrafa de cachaça.
Pacuri, seguia seu destino. Pela quinta vez era passado pra trás... Dessa vez traído pelo safado do jegue Jileno.
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Caminho da fome
Carlos desceu da moto, com as botas sujas da areia seca do sertão.
Queria ver de perto aquilo que o cercava.
Moto parada no acostamento.
Ao redor o som sombrio do vazio causado pela fome. Na frente barracas... muitas barracas. Eram como tendas de um coro tão seco que estava prestes a rasgar.
Em cada barraca uma pessoa estendia as mãos em busca de uma moeda. Em busca de uma migalha.
O rosto daquela mulher impressionava.
Era o rosto de sofrimento, de dor.
A fome não é uma realidade distante. A miséria é um mal muito próximo.
Numa barraca mais a frente três crianças. Todas com o semblante da falta de esperança.
A moto balança devido ao vento causado pelo caminhão que acabou de passar. O vento é seco, como o dia, como o futuro daquelas pessoas.
Na beira da estrada, um exército de pedintes. Um grupo de pessoas clamando por ajuda.
A estrada continua. Mas Carlos levará consigo na memória um pouco do chão seco daquela terra.
Sobe na moto e olha o painel. Pouca gasolina. Muito a percorrer. Deixa a bolacha e a garrafa de água que guardava na mochila e parte.
Caminhões param e deixam comida, água, dinheiro...
Mais a frente uma fazenda, o gado magro é o anúncio da morte proxima. O sertanejo senta diante do sol, próximo a cerca. Contempla a miséria que lhe espera.
De repente o inesperado. Ele se assusta.
As gotas começam a cair. O chão recebe cada gota como o fruto da esperança.
Carlos para a moto novamente. Olha pra trás e contempla a gritaria, criancas antes amoadas, pulam e sorriem...
Sorriso puro e inocente, lágrimas do céu que se transformam em pranto... cai mais chuva... o sertanejo se levanta. Olha pra cima parece ainda não acreditar.
Carlos fecha a viseira, ajeita a jaqueta e com as gotas de alegria batendo contra o corpo. Segue a estrada esburacada com um sorriso no rosto e mais paz no coração.
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
A pedra e o amor
Sem diálogo...
E no ponto de ônibus José se prepara para a longa espera...
Olha para os lados, para a placa no ponto, observa um senhor de uns 70 anos com uma mala no braço e pergunta:
- É... Boa tarde, é aqui que passa o ônibus 912?
- Hã?
- O ônibus 912... é por aqui?
- Sim...
A solidão enquanto espera o ônibus precisa ser vencida...
Por que não puxar assunto com este senhor gente boa?
- Aparenta que vai chover hoje né? Tudo indica que sim, pelas nuvens e este vento...
- É.
José não se conforma, como pode este velhinho não fazer questão de se comunicar.
- Esse ônibus demora, toda vez é a mesma coisa, no mínimo uma hora esperando...
O senhor faz uma cara de pouco caso, olha para o relógio e responde com cara de poucos amigos.
- As vezes.
José observa um pequeno broche do Santos na maletinha dele e resolve mudar de tática.
- E o Peixe este ano? Desta vez, vai brigar por título né?
- Talvez... - responde pacientemente e sem demonstrar qualquer sentimento.
- O senhor é santista né?
- Sou.
Parece que realmente não iria rolar diálogo entre eles, José então apela para última tentativa masculina de um início de diálogo.
Observa a passagem de uma garota bonita e comenta em voz alta com o velho:
- Nossa que maravilha, olha só que espetáculo de mulher!
A garota passa por José e comprimenta o velho.
- Oi pai, tá esperando o ônibus faz muito tempo?
José olha para os lados, e vai embora antes mesmo de ouvir a resposta do velho...