terça-feira, 8 de março de 2016

Verás que o filho teu será vendido

Um olhar de deboche, misturado a certeza de que nada irá acontecer, respaldada pelo crivo dos poderosos que dominam este país. 

Infelizmente esse será o retrato que guardarei dos meus dois encontros com Arlete Hilu, a mulher que para especialistas foi a maior traficante de crianças do Brasil. Durante quatro meses mergulhei na história desta mulher.

Ao todo estima-se que pelo menos 700 crianças foram levadas somente para Israel por intermédio da quadrilha que ela representava. Suspeita-se que pelo menos mais 3 mil crianças também tenham sido traficadas para fora do país pelo mesmo grupo criminoso.

Arlete se justifica: 

- Pode me chamar de traficante de crianças, é melhor do que traficante de drogas, eu fiz o bem. 

- São bibelôs, presentinhos para os pais que os compraram.

- Essas crianças viveriam na miséria no Brasil, foram jogados no lixo.

- Tiveram tudo do bom e do melhor, não sei o que eles vem procurar no Brasil.

Ao todo ela cumpriu apenas dois anos e meio de prisão, sendo apenas 1,6 anos em regime fechado. Algumas pessoas podem dizer: "Mas isso foi nas décadas de 1980 e princípio de 1990". Porém, em pleno ano de 2016, a mesma mulher, apontada como uma das líderes do maior esquema de tráfico de crianças do país disse, por livre e espontânea vontade que em dezembro de 2015 intermediou a saída de uma criança brasileira para um casal israelense.

Fiquei espantado com a declaração dela, o mesmo que percebi na experiente e competente repórter Heleine Heringer. A mulher estava assumindo um crime gravíssimo, estava demonstrando não ter medo algum de ser punida por isso. Infelizmente descobri o motivo pouco mais de um mês depois da entrevista.

Num esforço sobre-humano, juntamente com o editor Daniel Carvalho e com a amiga Lindalva Matos, começamos por conta própria a investigar a quadrilha que agia na época e os envolvidos. Conseguimos nomes, conexões, dados referentes ao modo como agia a quadrilha, enfim cavocamos a história. Descobrimos jovens brasileiros que até hoje vivem sem saber as verdadeiras origens. Que sofrem com esta situação.

Descobrimos mães que tiveram os filhos levados pela miséria, pela falta de apoio, pela quadrilha que se aproveitava de tudo isso. Mas o pior, foi descobrir que o crime organizado possui o respaldo de quem deveria impedir a ação, de quem deveria zelar pelo nosso código penal, pela nossa constituição. 
  
Infelizmente no país do contraditório, criminosos que se aproveitam da miséria para comercializar crianças para o exterior não são punidos. As mães trocam os filhos por comidas, enganadas em meio a vulnerabilidade social. Os filhos vivem no exterior, sem conhecerem suas origens.

No Brasil, bandido bom não é bandido morto, bandido bom é bandido rico. 

Assim caminhamos, vendendo nossas almas, vendendo nossos filhos. O brasileiro não "verás que o filho teu não foge a luta", pois "verás que o filho teu será vendido".

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Felicidade


Sabe aquelas cenas que não saem da sua cabeça? Aquelas fotografias tiradas pelo seu cérebro, guardadas naquelas gavetas especiais? Pois bem, graças a Deus tenho muitas dessas fotografias. 

Hoje em especial pensei num dia como qualquer outro, no qual descobri que a felicidade é muito simples, ao contrário do que muitos pensam é mais do que bens materiais caros, pessoas que lhe bajulam, ou mesmo o status social. 

Lembrei da gordinha mais feliz que já conheci e de um dia em que catávamos latinhas juntos. Era quarta feira de cinzas como agora.

Santos, uma cidade de tradição carnavalesca vivia a ressaca da segunda e se preparava para a terça de carnaval com mais blocos na rua. Dona Cida, com o sorriso inabalável e a felicidade que teimava em sentir, viu no dia uma grande oportunidade. 

Saiu cedo de casa comigo e partimos por várias ruas onde tinham passado os blocos. A missão era simples, recolher as latinhas vazias. Dois sacos grandes de lixo, um carrinho de feira e o pivete magrelo se abaixando junto com a vovó gordinha em busca de novas latas pelo caminho.

O caminho não era curto, mas ela encarava com alegria cada novo passo e me fazia rir com os mais simples gestos.

Enchemos duas sacolas e o carrinho de feira, hora de ir embora. 

Pelo caminho escutávamos as últimas bandas carnavalescas tocando ao fundo e via minha vó sambando e fazendo graça pelo caminho. 

Ao ver a troca das latas no ferro velho não me conformei com o baixo valor das tantas latinhas que conseguimos achar. Mas Dona Cida estava triunfante. Feliz da vida e falou:
"Filhinho vamos ao mercado comprar umas besteirinhas".

Só Deus sabe explicar o sorriso de felicidade de Dona Cida ao poder pagar no caixa do supermercado um pacote de bolachas recheadas, balinhas de caramelo e uma garrafa iogurte.

Durante toda a tarde comemos nosso prêmio pelo dia de trabalho e ganhei mais uma foto para guardar por toda a minha vida. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O Sanfoneiro

O céu logo escurecia... o dia se tornava noite no Sertão e aos poucos um vento fresco e gostoso trocava de lugar com o calor sufocante.

Seu Ernesto sentado numa cadeira de balanço me viu chegar de longe.

- Sente aqui moço. Messias vá buscar uma cadeira pro rapaz!

Ao me aproximar de seu Ernesto a cadeira já estava lá.

Me balancei na cadeira por alguns minutos. Seu Ernesto entrou em casa e voltou com dois copos de doce de leite.
Dizia que a mulher dele que fez.

Ao comer o doce falávamos sobre a noite no sertão e citei o quanto gostava de ouvir uma sanfona.

- Pois é? Tu gosta mesmo? Pois tenho uma la dentro. E não toco há bem uns dez anos...

Seu Ernesto pegou a sanfona e com um sorriso no rosto e os olhos brilhando começou a tocar.

Dona Eulália a esposa de seu Ernesto apareceu e fechou a cara. Parecia não gostar do que ouvia. Entrou rápido para casa.

O velho olhou para a platéia de apenas uma pessoa e disse em voz baixa:

- A velha fica brava. Quando eu tocava chovia de mulher. Ela me fez prometer parar de tocar. Mas você foi a desculpa perfeita para poder tocar de novo!

O velho tocava, os olhos mareavam. Jovem ele voltava a ser e assim tocou a sanfona.

Ao final de cada música batia palmas e aos poucos a frente da casa de seu Ernesto enchia de gente.

Próximo da meia noite, mais de 20 pessoas ouviam dançavam e aplaudiam o velho sanfoneiro! Um senhorzinho com triangulo na mão gritava "Seu Ernesto voltou!"

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A quenga, o jegue e o bêbado

Pacuri estava triste, parecia coincidência ruim. Mas pela quarta vez era passado pra trás e tomava chifre da esposa.

O mais triste é que foram todos de mulheres diferentes. Vai ter vocação para corno lá em Alagoinha do Piauí...

Pacuri, perdeu a esposa, a casa, a moral e a vergonha.

Pegou o jegue Jileno, única posse restante do divórcio e partiu para dentro do Sertão.

Depois de dois dias de viagem no lombo de Jileno, tomando cachaça e descançando nas sombras dos mandacarus que encontrava pelo caminho, ele parou no primeiro bordel que viu pela frente.

Precisava de descanso mais cachaça e dos carinhos de alguma quenga...

Marilda veio atender, com cara de extressada.

- Homem, mais que desgracera é essa, se tu quiser que entre, mas esse jegue fica pra fora...

Pacuri, respirou fundo e respondeu decidido:

- Esse jegue tem nome, é Jileno! E vai entrar no cabaré comigo sim!

E Marilda foi ficando mais nervosa:

- Mas não entra não, isso aqui é cabaré de respeito!

- E onde já se viu respeito em bordel mulher! Jileno é meu amigo e entra comigo... Disse Pacuri, já empurrando o jegue bordel a dentro.

Verinha, uma quenga nova, com cara de santa, viu a cena e se apaixonou de pronto.

- O Marilda, mas pare com isso, não vê que os dois são amigos, pois se esse jegue não entrar, eu é que vou embora com eles.

A dona do bordel, já sem paciência não pensou duas vezes:

- Pois vai embora quenga doida, vá você, o jegue e esse bêbado pra fora do meu bordel!

E seguiram os três, Sertão a fora, vivendo a intensa paixão, eram só eles: a quenga o jegue e o bêbado, passaram dois dias de viagem, fazendo juras de amor.

Pacuri já tinha uma nova cachaça, que dividia com a amada, carregada pelo Jileno, amigo fiel e inseparável.

Ele puxava a corda do jegue e seguia a pé, dando descanso ao lombo do pobre animal, pararam numa pequena casa abandonada na seca, já na divisa com o Ceará.

Pacuri jurava amores pra Verinha e fazia planos da nova vida que começariam juntos!

Foi até o lado de fora da casa, acariciou o Jileno e pensou, amigo, obrigado por ser fiel!

Voltou ao quarto e dormiu abraçado com Verinha. Feliz, realizado.

Ao acordar, tomou um susto. "Cadê Verinha?"

Pôs a cabeça pra fora do quarto, procurou Jileno e não encontrou também.

A quenga foi embora com o melhor amigo de Pacuri, o jegue Jileno e ainda levou junto a última garrafa de cachaça.

Pacuri, seguia seu destino. Pela quinta vez era passado pra trás... Dessa vez traído pelo safado do jegue Jileno.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Caminho da fome

Carlos desceu da moto, com as botas sujas da areia seca do sertão.

Queria ver de perto aquilo que o cercava.

Moto parada no acostamento.

Ao redor o som sombrio do vazio causado pela fome. Na frente barracas... muitas barracas. Eram como tendas de um coro tão seco que estava prestes a rasgar.

Em cada barraca uma pessoa estendia as mãos em busca de uma moeda. Em busca de uma migalha.

O rosto daquela mulher impressionava.

Era o rosto de sofrimento, de dor.

A fome não é uma realidade distante. A miséria é um mal muito próximo.

Numa barraca mais a frente três crianças. Todas com o semblante da falta de esperança.

A moto balança devido ao vento causado pelo caminhão que acabou de passar. O vento é seco, como o dia, como o futuro daquelas pessoas.

Na beira da estrada, um exército de pedintes. Um grupo de pessoas clamando por ajuda.

A estrada continua. Mas Carlos levará consigo na memória um pouco do chão seco daquela terra.

Sobe na moto e olha o painel. Pouca gasolina. Muito a percorrer. Deixa a bolacha e a garrafa de água que guardava na mochila e parte.

Caminhões param e deixam comida, água, dinheiro...

Mais a frente uma fazenda, o gado magro é o anúncio da morte proxima. O sertanejo senta diante do sol, próximo a cerca. Contempla a miséria que lhe espera.

De repente o inesperado. Ele se assusta.

As gotas começam a cair. O chão recebe cada gota como o fruto da esperança.

Carlos para a moto novamente. Olha pra trás e contempla a gritaria, criancas antes amoadas, pulam e sorriem...

Sorriso puro e inocente, lágrimas do céu que se transformam em pranto... cai mais chuva... o sertanejo se levanta. Olha pra cima parece ainda não acreditar.

Carlos fecha a viseira, ajeita a jaqueta e com as gotas de alegria batendo contra o corpo. Segue a estrada esburacada com um sorriso no rosto e mais paz no coração.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A pedra e o amor

Na entrada de um grande bueiro, numa avenida em São Paulo, era possível ver uma luz, pequena, em meio a escuridão.

Uma senhora magra, suja, carregando consigo a expressão da morte, traga o cachimbo com pressa.
Ratos passam ao lado dela. Que permanece impassível, concentrada apenas no cachimbo e na felicidade instantânea ocasionada pelo crack.

O corpo chega a tremer a cada "pipada". Pessoas passam e sentem nojo.

Outras, com medo daquele "ser", simplesmente mudam o caminho e evitam passar por perto.

Cada pessoa lida de uma forma diferente com a cena repulsiva. Poucos são os traços humanos perceptíveis naquela mulher.

Os olhos vidrados, a boca sem dentes, as feridas no rosto e nos braços. Uma grande cicatriz na testa, resultado de alguma paulada. Os dedos queimados pelo ato de acender o cachimbo de lata com o isqueiro ao contrário.

O ambiente exalando forte odor de fezes e com ratos e baratas por todos os lados ajuda a desumanizar a cena.

A mulher segue vidrada no cachimbo e na droga que consome, o mundo real não existe mais naqueles momentos de " viagem". A sujeira, o odor, nada importa...

Mas algo fez os olhos vidrados da mulher mudarem de foco.

Do outro lado da rua uma linda menina com pouco mais de 12 anos corre em direção ao bueiro.
Com os olhos cheios de lagrimas a menina parece não se importar com nada que está ao redor da mulher.

Envolve o corpo esquelético e sujo daquela mulher com os pequenos braços de menina, beija o rosto manchado de sujeira.

O cachimbo cai no chão, os fragmentos de pedra se misturam com as cinzas no mato alto da entrada do bueiro.

A mulher tem um vislumbre de realidade nos olhos da menina, que chorando apenas diz:

- Mãe volta pra casa, te amo e preciso de você comigo.

Sem diálogo...

E no ponto de ônibus José se prepara para a longa espera...

Olha para os lados, para a placa no ponto, observa um senhor de uns 70 anos com uma mala no braço e pergunta:

- É... Boa tarde, é aqui que passa o ônibus 912?

- Hã?

- O ônibus 912... é por aqui?

- Sim...

A solidão enquanto espera o ônibus precisa ser vencida...

Por que não puxar assunto com este senhor gente boa?

- Aparenta que vai chover hoje né? Tudo indica que sim, pelas nuvens e este vento...

- É.

José não se conforma, como pode este velhinho não fazer questão de se comunicar.

- Esse ônibus demora, toda vez é a mesma coisa, no mínimo uma hora esperando...

O senhor faz uma cara de pouco caso, olha para o relógio e responde com cara de poucos amigos.

- As vezes.

José observa um pequeno broche do Santos na maletinha dele e resolve mudar de tática.

- E o Peixe este ano? Desta vez, vai brigar por título né?

- Talvez... - responde pacientemente e sem demonstrar qualquer sentimento.

- O senhor é santista né?

- Sou.

Parece que realmente não iria rolar diálogo entre eles, José então apela para última tentativa masculina de um início de diálogo.

Observa a passagem de uma garota bonita e comenta em voz alta com o velho:

- Nossa que maravilha, olha só que espetáculo de mulher!

A garota passa por José e comprimenta o velho.

- Oi pai, tá esperando o ônibus faz muito tempo?

José olha para os lados, e vai embora antes mesmo de ouvir a resposta do velho...